O manguito rotador é a estrutura mais frequentemente operada no ombro e uma das condições ortopédicas mais prevalentes em adultos. Mas entre pacientes, e às vezes entre profissionais de saúde, circulam informações incompletas ou equivocadas sobre essa condição.
As dez informações a seguir vêm diretamente da prática clínica. Algumas confirmam o que se imagina. Outras surpreendem.
São raras antes dos 40 anos
Lesões do manguito rotador são muito raras em pacientes com menos de 40 anos. A condição é essencialmente degenerativa, ou seja, decorre do envelhecimento natural do tendão ao longo do tempo. Isso não significa que jovens não possam ter lesões no ombro, mas nesses casos as causas costumam ser traumáticas ou envolvem outras estruturas, como o labrum ou a cápsula articular.
50% dos maiores de 80 anos têm lesão completa
Estudos de prevalência revelam que mais de 50% dos pacientes acima de 80 anos possuem lesões completas do manguito rotador, muitas delas sem qualquer sintoma. Esse dado é clinicamente importante: nem toda lesão identificada em exame de imagem precisa de tratamento cirúrgico. A ausência de sintomas é um dos fatores que orienta a conduta.
A maioria das lesões é degenerativa, não traumática
A grande maioria das lesões do manguito rotador não decorre de um acidente específico. O tendão foi se deteriorando ao longo dos anos, até que uma lesão se instalou. Nos casos em que um trauma precipitou o quadro, o que frequentemente ocorre é que já existia uma lesão prévia e o esforço aumentou sua extensão. Entender isso muda a abordagem: não há culpa nem descuido do paciente.
Exercícios de fortalecimento ajudam mesmo com lesão completa
O manguito rotador é composto por quatro tendões. Quando um está lesionado, os demais podem ser fortalecidos e assumir parte da função perdida, aliviando a dor e recuperando a capacidade funcional do ombro. É por isso que a fisioterapia e os exercícios específicos têm resultados reais em lesões completas, sem que a cirurgia seja obrigatória.
Lesões negligenciadas podem aumentar com o tempo
Lesões do manguito rotador não tratadas podem aumentar de tamanho ao longo do tempo, mas isso não é uma regra. Algumas permanecem estáveis por anos. O acompanhamento clínico periódico é fundamental para monitorar a evolução e decidir o momento certo de intervir, caso a intervenção seja necessária. O crescimento da lesão é um dos critérios que pode indicar tratamento cirúrgico.
Lesões extensas podem indicar prótese no lugar do reparo
Em lesões muito extensas e associadas à degeneração muscular avançada, a cirurgia de reparo pode não ser tecnicamente viável ou pode não oferecer resultado funcional satisfatório. Nesses casos, a indicação pode ser de uma artroplastia reversa do ombro, cirurgia que substitui a articulação e permite que o deltóide assuma a função motora principal, mesmo sem manguito rotador funcional.
O tendão mais afetado é o supraespinhal
O tendão supraespinhal é o componente do manguito rotador mais frequentemente comprometido. A explicação é anatômica: esse tendão passa por uma região com menor vascularização, chamada de zona crítica, o que compromete sua capacidade de regeneração e o torna mais vulnerável ao desgaste progressivo ao longo dos anos.
A dor não é sentida no local do tendão
A dor causada pela lesão do manguito rotador geralmente não é sentida exatamente onde o tendão está. O padrão mais comum é a dor anterolateral no ombro, em uma região que pode se irradiar até a lateral do braço. Esse padrão de dor referida frequentemente leva o paciente a acreditar que o problema está no músculo, não no tendão. O exame físico diferencia essas situações.
Lesões do subescapular são difíceis de diagnosticar por imagem
As lesões do tendão subescapular, o componente anterior do manguito rotador, são frequentemente subdiagnosticadas pela ressonância magnética convencional. O exame físico bem conduzido, com testes específicos para o subescapular, é essencial para levantar a suspeita diagnóstica antes da imagem. Essa é uma das razões pelas quais o exame clínico precede e orienta a análise dos exames de imagem.
Cirurgia bem indicada tem 90% de bons resultados
Quando a cirurgia é bem indicada e tecnicamente adequada ao caso, os estudos mostram que cerca de 90% dos pacientes obtêm bons resultados funcionais. A palavra-chave é indicação: o critério de quem opera, o perfil do paciente, o tamanho e a qualidade do tendão lesionado, e o estado do músculo determinam diretamente o resultado esperado. Uma cirurgia mal indicada tem resultados piores, independentemente da técnica.
O manguito rotador é uma estrutura robusta e com boa capacidade de resposta ao tratamento adequado. O que define o resultado é a qualidade da indicação, seja conservadora ou cirúrgica, e não apenas a presença da lesão em si.
Dr. Gláucio Siqueira
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