Apesar do nome, a grande maioria das pessoas com epicondilite nunca segurou uma raquete de tênis ou um taco de golfe. O termo “cotovelo de tenista” e “cotovelo de golfista” descreve o padrão de movimento que costuma causar a lesão — não quem ela afeta. Na prática, trabalho manual repetitivo, digitação, uso de mouse e atividades domésticas respondem pela maior parte dos casos que chegam ao consultório.
Duas condições, dois lados do cotovelo
Epicondilite lateral (cotovelo de tenista)
Afeta os tendões extensores do punho, na região onde se inserem no epicôndilo lateral — a saliência óssea na parte externa do cotovelo. É a causa mais comum de dor no cotovelo em adultos. O músculo mais frequentemente envolvido é o extensor radial curto do carpo.
Epicondilite medial (cotovelo de golfista)
Afeta os tendões flexores e pronadores do antebraço, na parte interna do cotovelo. Menos comum que a forma lateral, exige atenção redobrada porque o nervo ulnar passa próximo à região e pode ser envolvido no quadro.
Nas duas formas, apesar do sufixo “-ite” sugerir inflamação aguda, o que costuma acontecer é uma tendinopatia degenerativa: uma alteração progressiva na estrutura do tendão causada por sobrecarga repetitiva, e não uma inflamação súbita. Essa distinção é relevante porque orienta o tratamento — o foco está em reabilitação e fortalecimento progressivo do tendão, não apenas em reduzir uma inflamação pontual.
Como reconhecer os sintomas
- ✓Dor na parte externa (lateral) ou interna (medial) do cotovelo, que pode se irradiar para o antebraço
- ✓Dificuldade ou dor ao segurar objetos, apertar a mão de alguém ou girar uma maçaneta
- ✓Sensação de fraqueza no braço, especialmente em movimentos de extensão ou flexão do punho contra resistência
- ✓Dor que piora ao longo do dia com o uso repetitivo da mão e do punho
- ✓Na forma medial, formigamento ou dormência no quarto e quinto dedos, quando há envolvimento do nervo ulnar
Quando procurar um especialista
A avaliação é indicada quando a dor no cotovelo persiste por mais de duas a quatro semanas, interfere nas atividades do dia a dia ou não melhora com repouso e medidas simples. Dificuldade para segurar objetos, sensação de fraqueza no braço, piora progressiva dos sintomas ou formigamento nos dedos são sinais adicionais que reforçam a necessidade de avaliação. Identificar a condição precocemente permite iniciar o tratamento certo antes que o quadro progrida.
O que esperar do tratamento
A maioria dos casos de epicondilite responde bem ao tratamento conservador: repouso relativo da atividade que desencadeia a dor, fisioterapia direcionada ao fortalecimento excêntrico do tendão, e, em alguns casos, órteses que reduzem a tensão sobre a inserção tendínea durante as atividades do dia a dia. A cirurgia é reservada para os casos que não respondem ao tratamento conservador bem conduzido por um período prolongado — uma minoria dos pacientes.
O ponto mais importante do tratamento costuma ser identificar e ajustar o gesto ou a atividade que sobrecarrega o tendão repetidamente. Sem esse ajuste, mesmo um tratamento bem conduzido tende a resultar em recidiva quando a pessoa retoma a mesma atividade da mesma forma.
A epicondilite é um exemplo claro de como o nome popular de uma condição pode confundir o paciente sobre sua própria causa. Na avaliação, o que importa não é o esporte ou a atividade que “deveria” causar a dor, mas identificar, no caso individual de cada paciente, qual gesto repetitivo está sobrecarregando aquele tendão.
Dr. Gláucio Siqueira
