GIRD (glenohumeral internal rotation deficit, ou déficit de rotação interna do ombro) é uma alteração adaptativa do ombro comum em quem pratica esportes assimétricos, como tênis, vôlei, handebol e arremesso. Nem sempre é uma doença, mas pode sobrecarregar o manguito rotador e o lábio glenoidal quando não é identificado e tratado a tempo — e é uma causa frequente, e pouco conhecida, de dor no ombro durante o saque no tênis.
O que é GIRD (déficit de rotação interna do ombro)
O ombro é a articulação mais móvel do corpo humano, e essa mobilidade normalmente é equilibrada entre rotação interna e rotação externa. No GIRD, esse equilíbrio se rompe: o ombro dominante — o braço usado para sacar, arremessar ou bater — perde parte da capacidade de rotação interna em comparação ao ombro não dominante.
Isso acontece porque a cápsula articular, o envoltório de tecido conjuntivo que envolve a articulação do ombro, sofre uma adaptação estrutural: a parte anterior da cápsula se alonga, enquanto a parte posterior se torna mais rígida e contraída. O resultado é um ombro assimétrico — mais “solto” na rotação externa e mais “travado” na rotação interna.
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Por que o GIRD acontece em esportes assimétricos
O GIRD é consequência de um padrão de movimento repetitivo: esportes em que o braço dominante é constantemente forçado em rotação externa e em posições acima da cabeça, como o movimento do saque no tênis, o arremesso no vôlei e no handebol, ou o movimento de arremesso no beisebol.
Com a repetição desse gesto ao longo de anos de prática, o ombro se adapta estruturalmente a essa demanda — e é exatamente essa adaptação repetida que gera a assimetria entre rotação interna e externa.
Quais esportes têm mais risco de desenvolver GIRD
O GIRD aparece com mais frequência em esportes que exigem o braço acima da cabeça, de forma repetida, em alta velocidade ou sob carga — o padrão de movimento que força o ombro dominante a essa adaptação estrutural ao longo do tempo. Quem pratica essas modalidades com regularidade deve ficar atento a sinais de dor ou perda de mobilidade no ombro dominante:
- ✓Tênis — o saque e as bolas cortadas ou liftadas exigem rotação externa máxima seguida de desaceleração brusca, um dos padrões mais estudados na literatura esportiva sobre GIRD.
- ✓Vôlei — a cortada e o saque em salto reproduzem o mesmo gesto de arremesso acima da cabeça, com volume de repetições muito alto ao longo de uma temporada.
- ✓Handebol — arremessos de alta velocidade, muitas vezes sob marcação, geram sobrecarga rotacional intensa no ombro dominante.
- ✓Natação — principalmente nos estilos crawl e borboleta, a fase de recuperação do braço acima da cabeça, repetida milhares de vezes por treino, também favorece essa adaptação capsular.
- ✓Beisebol e softbol — o arremesso é o gesto historicamente mais associado ao GIRD, com risco elevado de lesão do lábio glenoidal (SLAP) em arremessadores.
- ✓Crossfit e ginástica — movimentos overhead como muscle-up, kipping pull-up, arremesso (snatch) e desenvolvimento (jerk) reproduzem o mesmo estresse rotacional, principalmente quando a técnica ainda não está refinada.
- ✓Musculação com carga acima da cabeça — desenvolvimento militar, remada alta e puxadas atrás da nuca, quando feitas com volume alto e técnica inadequada, também podem gerar o mesmo padrão adaptativo.
Se você pratica algum desses esportes com regularidade e sente dor, perda de força ou desconforto ao levar o braço acima da cabeça — mesmo que leve e intermitente — vale a pena passar por uma avaliação antes que o quadro evolua para uma lesão estrutural.
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GIRD é sempre um problema?
Não necessariamente. Um certo grau de déficit de rotação interna é uma alteração normal e esperada em atletas de esportes assimétricos — muitos jogadores de tênis e arremessadores convivem com algum grau de GIRD sem qualquer sintoma, ao longo de toda a carreira esportiva.
O problema surge quando esse déficit ultrapassa um determinado limiar, gerando alterações biomecânicas que sobrecarregam outras estruturas do ombro durante o movimento esportivo.
Quais lesões o GIRD pode causar quando não tratado
Quando o desequilíbrio de rotação é significativo, o ombro compensa a perda de mobilidade em outras estruturas, o que pode sobrecarregar:
- ✓O manguito rotador, especialmente o tendão supraespinhal, que pode desenvolver tendinopatia ou lesões parciais com o esforço repetitivo
- ✓O lábio glenoidal, a estrutura fibrocartilaginosa que estabiliza a articulação, podendo desenvolver lesões como a SLAP (lesão do lábio superior, de anterior a posterior), comum em atletas de arremesso
É justamente essa cadeia — déficit de rotação interna levando a sobrecarga biomecânica, que por sua vez pode levar à lesão estrutural — que torna importante identificar e tratar o GIRD antes que ele evolua para um quadro doloroso e limitante.
Como tratar: o alongamento sleeper stretch
Na maioria dos casos, o GIRD não é um problema cirúrgico. O tratamento inicial, tanto preventivo quanto terapêutico, envolve o alongamento da porção posterior da cápsula do ombro — a parte que fica contraída nesse quadro.
O exercício mais utilizado para isso é o sleeper stretch:
- 1Deite-se de lado, sobre o ombro que você quer alongar.
- 2Mantenha o braço de baixo estendido para a frente, com o cotovelo dobrado a 90 graus, apontado para fora do corpo.
- 3Com a outra mão, empurre suavemente o antebraço em direção ao chão, forçando a rotação interna do ombro.
- 4Segure o alongamento por 20 a 30 segundos, sem dor intensa, e repita algumas vezes.
Feito de forma regular, esse alongamento ajuda a restaurar o equilíbrio de movimento e a reduzir a sobrecarga sobre o manguito rotador e o lábio glenoidal.
Quando vale a pena investigar com exame de imagem
Se a dor no ombro durante a prática esportiva for persistente e não melhorar com o alongamento e o ajuste da carga de treino, vale a pena buscar uma avaliação especializada. Nesses casos, um exame de ressonância magnética pode ser indicado para avaliar diretamente as estruturas do ombro — manguito rotador, lábio glenoidal e cápsula articular — e confirmar se já existe alguma lesão instalada além da adaptação estrutural do GIRD.
Se você joga tênis e sente dor na hora do saque, o problema pode não ser uma lesão do manguito rotador ou uma bursite — pode ser um déficit de rotação interna do ombro, o GIRD. Na maioria das vezes não é uma doença, mas se a dor persistir mesmo com o alongamento adequado, vale a pena investigar as estruturas do ombro com um especialista.
Dr. Gláucio Siqueira
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