Tenista executando o saque, com o braço dominante em rotação externa máxima acima da cabeça
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GIRD: por que dói o ombro na hora do saque no tênis

Dr. Gláucio Siqueira

Dr. Gláucio Siqueira

Ortopedista · Ombro e Cotovelo

20 de agosto de 2026·5 min de leitura

GIRD (glenohumeral internal rotation deficit, ou déficit de rotação interna do ombro) é uma alteração adaptativa do ombro comum em quem pratica esportes assimétricos, como tênis, vôlei, handebol e arremesso. Nem sempre é uma doença, mas pode sobrecarregar o manguito rotador e o lábio glenoidal quando não é identificado e tratado a tempo — e é uma causa frequente, e pouco conhecida, de dor no ombro durante o saque no tênis.

O que é GIRD (déficit de rotação interna do ombro)

O ombro é a articulação mais móvel do corpo humano, e essa mobilidade normalmente é equilibrada entre rotação interna e rotação externa. No GIRD, esse equilíbrio se rompe: o ombro dominante — o braço usado para sacar, arremessar ou bater — perde parte da capacidade de rotação interna em comparação ao ombro não dominante.

Isso acontece porque a cápsula articular, o envoltório de tecido conjuntivo que envolve a articulação do ombro, sofre uma adaptação estrutural: a parte anterior da cápsula se alonga, enquanto a parte posterior se torna mais rígida e contraída. O resultado é um ombro assimétrico — mais “solto” na rotação externa e mais “travado” na rotação interna.

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Dor no ombro ao sacar no tênis e o GIRD — vídeo do Dr. Gláucio Siqueira no Instagram.

Por que o GIRD acontece em esportes assimétricos

O GIRD é consequência de um padrão de movimento repetitivo: esportes em que o braço dominante é constantemente forçado em rotação externa e em posições acima da cabeça, como o movimento do saque no tênis, o arremesso no vôlei e no handebol, ou o movimento de arremesso no beisebol.

Com a repetição desse gesto ao longo de anos de prática, o ombro se adapta estruturalmente a essa demanda — e é exatamente essa adaptação repetida que gera a assimetria entre rotação interna e externa.

Quais esportes têm mais risco de desenvolver GIRD

O GIRD aparece com mais frequência em esportes que exigem o braço acima da cabeça, de forma repetida, em alta velocidade ou sob carga — o padrão de movimento que força o ombro dominante a essa adaptação estrutural ao longo do tempo. Quem pratica essas modalidades com regularidade deve ficar atento a sinais de dor ou perda de mobilidade no ombro dominante:

  • Têniso saque e as bolas cortadas ou liftadas exigem rotação externa máxima seguida de desaceleração brusca, um dos padrões mais estudados na literatura esportiva sobre GIRD.
  • Vôleia cortada e o saque em salto reproduzem o mesmo gesto de arremesso acima da cabeça, com volume de repetições muito alto ao longo de uma temporada.
  • Handebolarremessos de alta velocidade, muitas vezes sob marcação, geram sobrecarga rotacional intensa no ombro dominante.
  • Nataçãoprincipalmente nos estilos crawl e borboleta, a fase de recuperação do braço acima da cabeça, repetida milhares de vezes por treino, também favorece essa adaptação capsular.
  • Beisebol e softbolo arremesso é o gesto historicamente mais associado ao GIRD, com risco elevado de lesão do lábio glenoidal (SLAP) em arremessadores.
  • Crossfit e ginásticamovimentos overhead como muscle-up, kipping pull-up, arremesso (snatch) e desenvolvimento (jerk) reproduzem o mesmo estresse rotacional, principalmente quando a técnica ainda não está refinada.
  • Musculação com carga acima da cabeçadesenvolvimento militar, remada alta e puxadas atrás da nuca, quando feitas com volume alto e técnica inadequada, também podem gerar o mesmo padrão adaptativo.

Se você pratica algum desses esportes com regularidade e sente dor, perda de força ou desconforto ao levar o braço acima da cabeça — mesmo que leve e intermitente — vale a pena passar por uma avaliação antes que o quadro evolua para uma lesão estrutural.

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Como o esporte de repetição sobrecarrega o ombro e quando a dor merece avaliação.

GIRD é sempre um problema?

Não necessariamente. Um certo grau de déficit de rotação interna é uma alteração normal e esperada em atletas de esportes assimétricos — muitos jogadores de tênis e arremessadores convivem com algum grau de GIRD sem qualquer sintoma, ao longo de toda a carreira esportiva.

O problema surge quando esse déficit ultrapassa um determinado limiar, gerando alterações biomecânicas que sobrecarregam outras estruturas do ombro durante o movimento esportivo.

Quais lesões o GIRD pode causar quando não tratado

Quando o desequilíbrio de rotação é significativo, o ombro compensa a perda de mobilidade em outras estruturas, o que pode sobrecarregar:

  • O manguito rotador, especialmente o tendão supraespinhal, que pode desenvolver tendinopatia ou lesões parciais com o esforço repetitivo
  • O lábio glenoidal, a estrutura fibrocartilaginosa que estabiliza a articulação, podendo desenvolver lesões como a SLAP (lesão do lábio superior, de anterior a posterior), comum em atletas de arremesso

É justamente essa cadeia — déficit de rotação interna levando a sobrecarga biomecânica, que por sua vez pode levar à lesão estrutural — que torna importante identificar e tratar o GIRD antes que ele evolua para um quadro doloroso e limitante.

Como tratar: o alongamento sleeper stretch

Na maioria dos casos, o GIRD não é um problema cirúrgico. O tratamento inicial, tanto preventivo quanto terapêutico, envolve o alongamento da porção posterior da cápsula do ombro — a parte que fica contraída nesse quadro.

O exercício mais utilizado para isso é o sleeper stretch:

  1. 1Deite-se de lado, sobre o ombro que você quer alongar.
  2. 2Mantenha o braço de baixo estendido para a frente, com o cotovelo dobrado a 90 graus, apontado para fora do corpo.
  3. 3Com a outra mão, empurre suavemente o antebraço em direção ao chão, forçando a rotação interna do ombro.
  4. 4Segure o alongamento por 20 a 30 segundos, sem dor intensa, e repita algumas vezes.

Feito de forma regular, esse alongamento ajuda a restaurar o equilíbrio de movimento e a reduzir a sobrecarga sobre o manguito rotador e o lábio glenoidal.

Quando vale a pena investigar com exame de imagem

Se a dor no ombro durante a prática esportiva for persistente e não melhorar com o alongamento e o ajuste da carga de treino, vale a pena buscar uma avaliação especializada. Nesses casos, um exame de ressonância magnética pode ser indicado para avaliar diretamente as estruturas do ombro — manguito rotador, lábio glenoidal e cápsula articular — e confirmar se já existe alguma lesão instalada além da adaptação estrutural do GIRD.

Se você joga tênis e sente dor na hora do saque, o problema pode não ser uma lesão do manguito rotador ou uma bursite — pode ser um déficit de rotação interna do ombro, o GIRD. Na maioria das vezes não é uma doença, mas se a dor persistir mesmo com o alongamento adequado, vale a pena investigar as estruturas do ombro com um especialista.

Dr. Gláucio Siqueira

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Perguntas frequentes

O que significa a sigla GIRD?+
GIRD é a sigla em inglês para “glenohumeral internal rotation deficit” — déficit de rotação interna glenoumeral, ou déficit de rotação interna do ombro. Descreve a perda parcial da capacidade de rotação interna no ombro dominante de atletas de esportes assimétricos, como tênis, vôlei e arremesso.
Dor no ombro ao sacar no tênis sempre é lesão do manguito rotador?+
Não. Embora o manguito rotador seja uma causa comum de dor no ombro em jogadores de tênis, a dor no momento do saque também pode estar relacionada ao GIRD — um desequilíbrio biomecânico de rotação do ombro que nem sempre envolve lesão estrutural, mas que pode evoluir para uma se não for identificado e tratado.
Como fazer o alongamento sleeper stretch corretamente?+
Deite-se de lado sobre o ombro afetado, com o braço estendido à frente e o cotovelo dobrado a 90 graus. Use a outra mão para empurrar suavemente o antebraço em direção ao chão, sentindo um alongamento na parte posterior do ombro, sem dor intensa. Mantenha por 20 a 30 segundos e repita algumas vezes ao dia, especialmente antes e depois da prática esportiva.
GIRD tem cura sem cirurgia?+
Sim, na grande maioria dos casos. O tratamento é conservador e baseado em alongamento da cápsula posterior do ombro, ajuste de carga de treino e, quando necessário, fisioterapia direcionada. A cirurgia só entra em consideração se já houver uma lesão estrutural instalada (do manguito rotador ou do lábio glenoidal) que não responda ao tratamento conservador.
Quem pratica vôlei ou natação também pode ter GIRD?+
Sim. Qualquer esporte que exija movimentos repetitivos do braço acima da cabeça, com rotação externa forçada do ombro dominante — como vôlei, natação, handebol e beisebol — pode gerar o mesmo tipo de adaptação capsular que causa o GIRD no tênis.
Crossfit e musculação também podem causar GIRD?+
Sim. Movimentos overhead frequentes no crossfit (muscle-up, kipping pull-up, snatch, jerk) e exercícios de musculação com carga acima da cabeça (desenvolvimento militar, puxada atrás da nuca) reproduzem o mesmo padrão de estresse rotacional dos esportes de arremesso, especialmente quando feitos com volume alto ou técnica inadequada.

Avaliação especializada

Sente dor no ombro ao praticar esporte?

Seja tênis, vôlei, handebol, natação, crossfit ou musculação, dor recorrente no ombro durante a prática esportiva merece avaliação especializada. Agende uma consulta com o Dr. Gláucio para identificar a causa e evitar que o problema evolua para uma lesão estrutural.

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