A popularização de medicamentos à base de GLP-1, como a semaglutida (Ozempic, Wegovy) e a tirzepatida (Mounjaro), trouxe uma pergunta recorrente nos consultórios de ortopedia: esses fármacos afetam a saúde dos tendões do ombro? Para quem tem diagnóstico de lesão do manguito rotador ou está programando uma cirurgia, a dúvida é especialmente relevante.
A resposta envolve o que já sabemos sobre a relação entre nutrição e manguito rotador, o que os estudos mais recentes estão mostrando, e um ponto crítico que muitas vezes fica fora da conversa: a diferença entre uso supervisionado e uso sem acompanhamento médico.
Como funcionam esses medicamentos
Os agonistas do receptor de GLP-1 reduzem o apetite e retardam o esvaziamento gástrico, resultando em menor ingestão calórica e perda de peso progressiva. O efeito é clinicamente relevante, com reduções de peso de 15% a 22% do peso corporal em estudos controlados.
Com isso, parece natural questionar se a redução na ingestão de nutrientes, proteínas e vitaminas incluídas, poderia comprometer a saúde dos tendões do ombro. A lógica faz sentido: tendões dependem de síntese proteica adequada para se manter e se recuperar de microlesões. Qualquer processo que reduza a oferta desses nutrientes pode, em tese, afetar a integridade tendínea.
O que já sabemos: nutrição e manguito rotador
A relação entre déficits nutricionais e lesões tendíneas não é nova na literatura ortopédica. Alguns pontos são bem estabelecidos:
Síntese proteica e colágeno: baixa ingestão proteica compromete a produção de colágeno, estrutura fundamental dos tendões. Tendões mal nutridos se tornam mais vulneráveis a lesões e cicatrizam com mais dificuldade.
Vitamina D: sua deficiência foi associada a maior prevalência de lesões do manguito rotador e a pior cicatrização após reparo cirúrgico. É um dos exames de rotina na avaliação pré-operatória do ombro.
Infiltração gordurosa: quando uma lesão do manguito rotador é negligenciada por muito tempo, o músculo começa a ser substituído por gordura. Esse fenômeno, chamado de degeneração gordurosa, está relacionado a desnutrição e sarcopenia, compromete permanentemente a função do músculo e reduz as chances de um bom resultado cirúrgico.
Esses dados geraram a hipótese de que medicamentos que reduzem significativamente a ingestão calórica poderiam ser prejudiciais ao manguito rotador, especialmente em pacientes que já têm lesão estabelecida ou que estão se preparando para uma cirurgia de reparo.
O que a evidência emergente mostra
Os dados que começam a surgir apontam em uma direção diferente da que se esperava. Estudos iniciais não identificaram aumento na incidência de lesões do manguito rotador em usuários de GLP-1, nem piora nos resultados de cirurgias de reparo nesse grupo de pacientes.
Mais do que isso, há uma hipótese em investigação de que esses medicamentos possam ter um efeito protetor contra a degeneração gordurosa muscular que acompanha as lesões crônicas do manguito. Os receptores de GLP-1 estão presentes em vários tecidos, e propriedades anti-inflamatórias e antifibróticas desses fármacos são objeto de estudo em diferentes contextos musculoesqueléticos.
É importante registrar que essa evidência ainda é preliminar. Não há estudos de longo prazo com grandes populações que estabeleçam de forma definitiva o impacto dessas medicações sobre o manguito rotador. O que se pode afirmar com segurança é que o pessimismo inicial não se confirmou nos dados disponíveis.
O fator determinante: supervisão médica
Há um ponto central que o Dr. Gláucio destaca ao analisar esses dados: os estudos foram conduzidos com pacientes sob supervisão. Esses pacientes tiveram sua ingestão nutricional monitorada, realizaram exercícios, receberam suplementação quando necessário e foram acompanhados durante todo o processo de emagrecimento.
Esse contexto é radicalmente diferente do uso sem acompanhamento, que é o que ocorre com grande parte dos usuários no mundo real. Sem monitoramento, déficits nutricionais relevantes, de proteína, vitamina D, ferro, zinco e outros micronutrientes, podem se instalar de forma silenciosa. O paciente emagrece, se sente bem fisicamente, e não percebe que seus tendões estão recebendo menos do que precisam para se manter saudáveis.
O que isso significa na prática
Para quem usa Ozempic ou Mounjaro e tem dor no ombro, ou diagnóstico de lesão do manguito rotador, a mensagem prática é clara. O uso supervisionado, com monitoramento nutricional, exercício regular e acompanhamento médico, não parece prejudicar e pode até favorecer a saúde tendínea.
O uso sem supervisão representa um risco que não está completamente mapeado na literatura, mas que a lógica clínica sugere ser real. Déficit proteico mantido por meses em alguém que já tem comprometimento tendíneo não é uma situação desejável, independentemente de qual seja a causa desse déficit.
Quem está usando esses medicamentos e tem histórico de lesão no ombro ou está planejando uma cirurgia de reparo deve discutir o tema com o ortopedista. A avaliação inclui o estado nutricional, exames laboratoriais e a decisão compartilhada sobre como e quando conduzir o tratamento cirúrgico.
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