O reparo artroscópico do manguito rotador é hoje a técnica cirúrgica mais utilizada para tratar lesões dos tendões do ombro que não respondem ao tratamento conservador. Feito inteiramente por vídeo, através de pequenas incisões, o procedimento reinsere o tendão lesionado ao osso do úmero com o mínimo de trauma possível para a pele, os músculos e as estruturas ao redor da articulação.
A técnica aberta, também realizada de forma minimamente invasiva, continua sendo utilizada e com bons resultados quando bem indicada. A diferença está na via de acesso: enquanto a cirurgia aberta exige uma incisão maior para visualização direta do tendão, a artroscopia é feita por vídeo, com imagem ampliada e instrumental de maior precisão e alcance.
O que é o reparo artroscópico do manguito rotador
O manguito rotador é formado por quatro tendões (supraespinhal, infraespinhal, subescapular e redondo menor) que envolvem a cabeça do úmero e são responsáveis pela estabilidade do ombro, necessária para todos os movimentos da articulação. O manguito rotador “degenera” com o tempo e, em até metade das pessoas, ocorre algum grau de lesão até o final da vida. Quando essa lesão provoca dor e fraqueza, pode ser necessária cirurgia.
O reparo artroscópico consiste em reinserir o tendão rompido de volta ao seu local de origem no osso, fixando-o com âncoras de sutura — pequenos implantes que ficam presos ao osso e seguram os fios que costuram o tendão no lugar.
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Como funciona a técnica cirúrgica
O procedimento é sempre feito sob anestesia geral, que pode ser associada a um bloqueio regional para reforçar o controle da dor no pós-operatório imediato. O paciente é posicionado sentado, em posição de cadeira de praia, ou deitado em decúbito lateral, dependendo da preferência do cirurgião e das características do caso.
O cirurgião realiza de 3 a 5 pequenas incisões (portais) ao redor do ombro, com cerca de 5 a 12 milímetros cada. Por um desses portais, é inserida uma câmera de vídeo (o artroscópio), que projeta imagens ampliadas da articulação em um monitor. Pelos outros portais, entram os instrumentos cirúrgicos usados para:
- ✓Remover tecido inflamado ou danificado ao redor da lesão
- ✓Preparar a superfície óssea onde o tendão será reinserido
- ✓Posicionar as âncoras de sutura no osso
- ✓Passar os fios de sutura através do tendão e fixá-lo na posição anatômica correta
Ao final, os portais são fechados com pontos simples, resultando em cicatrizes muito pequenas e discretas.
Artroscopia ou cirurgia aberta: qual a diferença
A cirurgia aberta também pode ser realizada de forma minimamente invasiva e continua sendo uma técnica válida e utilizada nos dias de hoje — a artroscopia não é a única forma de operar o manguito rotador com pouco trauma para os tecidos.
A principal vantagem da artroscopia está na visualização: a câmera mostra o interior da articulação por dentro, com a imagem ampliada na tela, como uma lupa. Isso é especialmente útil no tratamento de lesões do tendão subescapular, quando presentes, e facilita a liberação dos tecidos ao redor da lesão durante a cirurgia. Ambas as técnicas produzem bons resultados finais quando bem indicadas e bem executadas.
Quando o reparo artroscópico é indicado
Nem toda lesão do manguito rotador precisa de cirurgia — a maioria dos casos melhora com tratamento conservador (fisioterapia, exercícios de fortalecimento e, quando necessário, infiltração). O reparo artroscópico costuma ser indicado quando:
- ✓A dor e a limitação funcional persistem após 3 a 6 meses de tratamento conservador adequado
- ✓Há lesão aguda e completa do tendão, especialmente em pacientes mais jovens e ativos
- ✓A lesão está aumentando de tamanho em exames de imagem seriados
- ✓A perda de força compromete atividades do dia a dia ou a prática esportiva
A decisão sempre considera o tamanho da lesão, a qualidade do tendão e do músculo, a idade e o nível de atividade do paciente, além do risco cirúrgico individual — não apenas a presença da lesão na ressonância magnética. Em pacientes com alto risco cirúrgico, a fisioterapia pode ser a opção mais indicada mesmo diante de uma lesão completa.
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Recuperação após a cirurgia
Por causa do período de imobilização, a recuperação não é rápida — mas a maioria dos pacientes já sente melhora significativa dentro dos primeiros meses. De forma geral:
- ✓Imobilização em tipoia (2 a 6 semanas): a duração exata é decidida no momento da cirurgia, de acordo com a qualidade do tecido reparado, a idade do paciente e a tensão do reparo. Mesmo durante esse período, cotovelo, mão e escápula continuam sendo mobilizados normalmente — só o ombro fica protegido.
- ✓Após a retirada da tipoia: início de alongamentos para ganho de arco de movimento, sem carga.
- ✓A partir de 3 meses: início do fortalecimento muscular — não antes disso, para não sobrecarregar o reparo ainda em processo de cicatrização e reduzir o risco de recidiva da lesão.
- ✓4 a 6 meses: retorno às atividades físicas habituais, de acordo com a evolução individual na fisioterapia.
Pular etapas da reabilitação para “acelerar” a recuperação é um dos principais fatores de risco para nova ruptura do reparo — a paciência com o protocolo é parte do resultado final.
Resultados esperados
Quando bem indicado e tecnicamente bem executado, o reparo artroscópico do manguito rotador tem taxas de bons resultados funcionais que giram em torno de 90% dos casos, com alívio significativo da dor e recuperação da força e da amplitude de movimento. O fator mais determinante para esse resultado não é apenas a técnica em si, mas a qualidade da indicação: o perfil do paciente, o tamanho da lesão e a saúde do tendão e do músculo no momento da cirurgia.
A artroscopia mudou completamente a forma como tratamos as lesões do manguito rotador. É um procedimento de baixo risco, com recuperação previsível, mas o resultado depende diretamente de uma indicação bem-feita — nem toda lesão precisa de cirurgia, e a decisão deve vir sempre de uma avaliação clínica completa.
Dr. Gláucio Siqueira
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