Tendinopatia do ombro — o que muita gente conhece como tendinite — é a sobrecarga dos tendões do ombro: na maioria das vezes os do manguito rotador, especialmente o supraespinhal, mas não necessariamente só eles, já que o tendão da cabeça longa do bíceps também pode ser afetado. É causada por uso repetitivo, impacto sob o acrômio ou desgaste relacionado à idade. Tendinopatia é o termo mais adequado: apesar de “tendinite” sugerir uma inflamação aguda, a maior parte dos casos é uma alteração degenerativa do tendão, que pode evoluir para uma lesão parcial ou completa se não for identificada e tratada a tempo.
O que é a tendinopatia do ombro
O manguito rotador é o conjunto de quatro tendões — supraespinhal, infraespinhal, redondo menor e subescapular — que envolve a cabeça do úmero e estabiliza o ombro durante o movimento. Quando um desses tendões, mais comumente o supraespinhal, sofre sobrecarga repetitiva ou compressão contra o acrômio (o "teto" ósseo do ombro), ele desenvolve um processo de desgaste progressivo chamado tendinopatia — popularmente chamado de tendinite. O mesmo processo pode atingir o tendão da cabeça longa do bíceps, que também passa pelo ombro.
Assim como acontece na epicondilite do cotovelo, o sufixo "-ite" sugere uma inflamação súbita, mas na maioria dos casos crônicos o que existe é uma alteração estrutural do tendão ao longo do tempo, e não uma inflamação aguda isolada. Essa distinção importa porque orienta o tratamento: o foco costuma estar em reduzir a sobrecarga e fortalecer a musculatura ao redor, não apenas em combater uma inflamação.
Principais sintomas
- ✓Dor na parte lateral ou frontal do ombro, que pode irradiar para o braço
- ✓Dor que piora à noite, especialmente ao deitar sobre o lado afetado
- ✓Arco doloroso: dor concentrada entre aproximadamente 60° e 120° de elevação do braço, aliviando perto do topo do movimento
- ✓Dificuldade ou dor para atividades simples, como pentear o cabelo, vestir uma blusa ou pegar algo atrás do carro
- ✓Sensação de fraqueza ao levantar ou girar o braço, mais evidente quando já existe alguma lesão associada do tendão
Causas mais comuns
- ✓Sobrecarga repetitiva: esportes com movimento acima da cabeça (natação, vôlei, tênis) ou trabalho manual repetitivo com os braços elevados
- ✓Impacto subacromial: quando o espaço entre o acrômio e o tendão é naturalmente mais estreito, ou fica reduzido por alterações ósseas, o tendão é comprimido a cada movimento de elevação do braço
- ✓Desgaste relacionado à idade: a partir dos 40-50 anos, o tendão perde parte da elasticidade e da vascularização, ficando mais vulnerável a lesões mesmo com esforços do dia a dia
- ✓Desequilíbrio muscular e postural: fraqueza dos músculos estabilizadores da escápula sobrecarrega o manguito rotador durante o movimento
Tendinopatia, bursite ou lesão do manguito rotador: qual a diferença
Os três quadros compartilham sintomas parecidos e frequentemente aparecem juntos, mas descrevem estágios ou estruturas diferentes:
- ✓Tendinopatia: sobrecarga do tendão, sem ruptura das fibras — geralmente a fase inicial do problema
- ✓Bursite subacromial: inflamação da bolsa (bursa) que fica entre o tendão e o acrômio, funcionando como um "amortecedor" — muito comum acontecer ao mesmo tempo que a tendinopatia, pelo mesmo mecanismo de impacto
- ✓Lesão do manguito rotador: ruptura parcial ou completa de um dos tendões, um estágio mais avançado que pode acontecer como evolução de uma tendinopatia não tratada, ou de forma aguda por um trauma
Na prática, essas três situações fazem parte de uma mesma síndrome. Dependendo dos resultados do exame físico, o foco do tratamento pode estar em uma delas.
Como é feito o diagnóstico
O diagnóstico começa com a história clínica e o exame físico, incluindo testes específicos para o manguito rotador e para o espaço subacromial. Quando há suspeita de lesão estrutural, ou quando a dor não melhora com tratamento inicial, a ressonância magnética é o exame mais indicado para avaliar diretamente o tendão, a bursa e o restante das estruturas do ombro.
Tratamento
Na maioria dos casos de tendinopatia sem ruptura, o tratamento é conservador:
- ✓Repouso relativo das atividades que provocam dor, sem imobilização completa
- ✓Fisioterapia, com foco em fortalecimento progressivo do manguito rotador e da musculatura escapular
- ✓Anti-inflamatórios ou, em casos selecionados, infiltração guiada para reduzir a dor e permitir a reabilitação
- ✓Ajuste da técnica esportiva ou da ergonomia no trabalho, quando a causa é sobrecarga repetitiva
A cirurgia só entra em consideração quando já existe uma lesão estrutural do tendão que não responde ao tratamento conservador, ou em rupturas mais extensas identificadas na ressonância.
Leia também
Reparo artroscópico do manguito rotador →Como funciona a cirurgia quando há ruptura do tendão.
Boa parte dos pacientes que chegam ao consultório dizendo que têm 'tendinite no ombro há anos' na verdade nunca fez uma ressonância. Isso importa porque uma tendinopatia bem tratada precocemente tem um caminho de recuperação muito diferente de uma lesão do manguito rotador já instalada — e só dá pra saber em qual dos dois estágios o paciente está com uma avaliação adequada.
Dr. Gláucio Siqueira

